Opinião

Centralidade e rede: o equívoco do tudo ou nada

Pode ou não um hospital central diminuir a importância dos outros dois hospitais dos Açores? 

Há quem receie que o HDES se transforme numa torre isolada, absorvendo médicos e valências, deixando Angra do Heroísmo e Horta a perder importância. Por outro lado, uma petição recente avisa que reduzir o HDES a um simples hospital de ilha seria um retrocesso e lembra que ele sempre serviu as nove ilhas. 

No meio de posições mais extremadas, recuso-me a ver a centralidade e a rede como conceitos incompatíveis. Como açoriano, vejo o HDES como o topo de uma pirâmide que não existe sem a base. Criar um hospital central e universitário pode ser uma oportunidade para reforçar a nossa rede — se for feito com humildade e inteligência. Um centro que assume os casos mais complexos, que forma profissionais e impulsiona a investigação, sem diminuir os outros hospitais, pode ser a mola que falta. Mas isso exige investimento equitativo, tecnologia, telemedicina, partilha de informação, e, acima de tudo, uma cultura de cooperação que precisamos sempre melhorar. 

Transformar o HDES num hospital central não significa recentralizar uma vez mais os serviços; significa reconhecer que há diferentes níveis de cuidados. Há atos que só se devem fazer num centro universitário; outros, que podem e devem manter-se na Terceira e na Horta; e não podemosesquecer o aprofundamento da relação entre o que é feito nos Hospitais e o que pode ser feito nos Centros de Saúde. 

O que me preocupa não é a palavra “centralidade” em si, é a tendência para confundir poder com coordenação. Não precisamos de mais reinos com muralhas. Precisamos de uma rede em que um hospital central possa ser uma mais-valia para todo o Serviço Regional de Saúde. Mas,isso depende da nossa capacidade de pensar o arquipélago como um todo, e não de o dividir em castelos. 

 

(Crónica escrita para Rádio)